sexta-feira, 28 de junho de 2013

Nas margens do teu rio, mergulhei. Pediste-me nua, nas tuas mãos meu destino deixei. Nas margens dos rios, mesmo no teu, impossível o lugar.
No verão perdi-me de você; no verão geralmente perdemos as melhores coisas; no inverno, tua pele a roçar-me o frio, memória que lava a alma.
Nada de comparações genias com a natureza, árvores frondosas, auroras avermelhadas. Mas minha pele, ainda que baça; meu corpo, mesmo agudo.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Arrisco-me do sétimo andar. Como posso descrever sensação tão breve, talvez o orgasmo único, enquanto flutuo? Os segundos são migalhas.
Meu corpo navega as madrugadas.
Esqueceste-me, não tocas nas letras que aparecem sobre a tela? Lembras tua promessa? Cada letra do meu nome, minha pele alva ao alcance teu.
Meu coração é de vidro. Toca-o com cuidado. Não deixa que se quebre. Só tenho um. Posso te amar apenas uma vez.
Por que tanto a deslocar-me. Não preciso de pontos cardeais. Desnorteia-me a ponta do teus dedos, de todos os teus dedos...
Máquinas do mundo, máquinas de pele e osso, a triturar-me, como a moenda à cana, a levar-me o sumo, alimentar-se do meu sangue, do meu amor.
Oh, o irremediável. Como amar o miserável que só goza com o chicote à mão, não promete futuro algum, apenas o breve estalo de namorar a dor?
Debruço-me sobre teu poema, atravesso o limite da porta de entrada, invado-te a alma.
Respinga minha pele com o orvalho do teu amor. Jorra tua chuva sobre o meu corpo e nela espelha explosões de outros céus.
Oh, Casablanca, as mulheres de rostos cobertos. Oh, Casablanca, apenas eu, o rosto nu, a atravessar teus braços, a atravessar-te o corpo.
Pensas tantas vezes na morte... Mas quantas vezes se morre no momento máximo do amor?
Sozinha, num lugar deserto, mas teus olhos, sempre teus olhos, a espreitar-me a desejar minha nudez.

domingo, 23 de junho de 2013

Os troianos, sempre a simpatia pelos derrotados, por suas naus incendiadas, Coração que arde no dia artificial de uma cidade planejada.

sábado, 22 de junho de 2013

Comprimindo os lábios sopro-te um beijo; comprimindo os lábios sopro-te enlevo; comprimindo-me morro, teu nome, um grito, aço incandescente.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Escrita de água, escoa pelo ralo, evapora aos céus. Mas volta com a chuva.
Olha o Oriente, é de lá que vem a luz. Mas sou do outro lado, venho da noite, do Ocidente. Sou fada, ou quem sabe feiticeira, a te encantar.
Tornar-me invisível, poder entrar em qualquer lugar e saber todos os segredos. Mas sei que me descobririas, teu jato de tinta a me revelar..
Dos cimos da palmeira observar a terra; dos cimos, descer a vista e descobrir que além disso nada mais existe.
Palmeiral, a praia deserta, seios perfumados a sal, sereia de pernas azuladas.
Minha pele não há de se gastar ante tuas hordas estrangeiras. Minha pele, nas mãos tuas, tanto tempo, melhor contar as luas...
Frenética tua lança, sempre a me fustigar. Atlética tua temperança, logo a me acarinhar. Deserta, a tua lembrança, memória a se dispersar.
O ar fresco, febre diante do mar. O ar fresco, leve de se respirar. Arabescos, você a me respingar...
Oh, ser moça, como a borboleta breve. Ser moça e pensar que a vida é leve, que ferve, e que somos todos imortais.
Voa, borboleta, na ar verossímil da manhã. Voa, borboleta breve. Leva a vida, leve, enquanto há cor, enquanto há o dia.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Poetas, poetas, melhor que fosses malabaristas de circo; não lhes cairiam as palavras, não lhes fugiriam as metáforas...
Tão difícil escrever uma carta... Melhor escrever o inferno, de Dante, e condenar-te por me teres traído.
Gatos amarelos a ensaboar-me de sol...
Galochas... Onde mergulhar os pés? Galochas. Passos incertos, escorregadios, chão de amores voláteis.
Poemas que não avançam, que não engatam o primeiro, o segundo verso, poemas que almejavam êxtases, e se perderam silenciosos, inexistentes.
Aquela triste e leda madrugada,
em que tiveste à mão a tua mágoa,
aproveitaste à sombra a tua amada,
pelada a amaste e inda a roubaste!.
O que podem meus versos? Apenas incentivar que também cantes, que mostre tua voz embora rude, que sinta teu coração como escudo.
Quiseste sempre o meu favor para exercitares a contra-dor. Ah, ter com quem nos mata, lealdade...
Amor perfeito combina com dias sãos. O sol a nos tostar, ou mesmo a arrepiar.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Fui ao dicionário ver o que são metáforas. Fechei o livro grosso embebida em maior dúvida. Metáfora, passo sob meus pés a me iluminar o sol.
Sentenças durante todo o dia. Sentenças são certezas, alguém que sempre nos avalize. Sentenças, verdades que nos escapam por baixo da porta.
Traduções, sempre traduções, o mundo em palavras fáceis, exemplos em textos de filosofias. Mas a vida é sem explicação... Beijemos o cão.
Achas difícil a poesia? Não é não. Fácil fazer versos. Basta olhar o fio, esse fio que passa sob a janela e vai dar logo ali, no logro,
Entro no táxi, vá pela Lagoa, por favor, quero minha crônica refletida no espelho d'água, molhada no reflexo da carro que vai à frente.
Tomas teu café na padaria da esquina. A manhã ainda fresca. Tomas teu café e esquentas o início do dia. Partes, deixa frio o meu coração.
Ginástica pela manhã. À beira mar? Na academia? Ginástica pela manhã. Torcer sílabas, encontrar palavras, inventar sintaxes.
Tantas as portas numa cidade. Bater em qual delas. Todo vendedor amanhece rico.
Conheces os sapatos que passam? Conheço os pés nus do homem, também nu, que dormiu na minha cama.
Sílabas soltas em Copacabana, ruídos de táxis, ônibus. Minha empregada não veio.

domingo, 2 de junho de 2013

Sono de domingo, torpor que me beira ao meio-dia. Sono de domingo, sol que me surpreende ao zênite, que me deixa ao flerte, me rouba a pele.